Um Roteiro de
Déborah Guaraná
EXT. PRAIA. MADRUGADA
Uma moça está correndo numa praia deserta enquanto o dia começa a ficar claro. Vestida em trajes de gala, segurando suas sandálias de salto alto nas mãos, a moça aparenta estar desesperada. O som do ambiente silencioso e calmo do mar incomoda. Aos poucos escutam-se sons vindos de outro ambiente, uma rua movimentada. Carros, buzinas, zoada. A mulher continua correndo. Ela olha para trás enquanto corre. Os sons aumentam: a respiração ofegante da mulher, os sons da rua, o mar, e uma conversa entre um casal. Um susto, um grito e, então, a moça desfalece no chão ao mesmo tempo em que se escuta um som de batida.
A tela fica preta. O som ambiente da rua, enquanto o carro é socorrido se mistura com o barulho de mar.
INT. APARTAMENTO. TARDE
Rolam os créditos iniciais do filme ao som de uma música calma, e batidas fortes em ritmo de marcha fúnebre, enquanto o apartamento de uma família de classe média vai ficando vazio.
Mel, uma garota de 20 anos, e Cula, um jovem de 18 anos, estão nesse apartamento que ficou vazio. Eles fecham o apartamento e saem para o ...
CORREDOR
sem trocar nenhuma palavra. Enquanto Mel está visivelmente abalada, Cula não dá sinais do que sente.
EXT. HALL DO PRÉDIO. TARDE
Entre um cigarro e outro, Cula tenta puxar um assunto qualquer e Mel desconversa. Um carro dirigido por uma SENHORA de cerca de 60 anos chega. De longe, vemos Mel e Cula pondo suas coisas no porta-malas. Eles fecham o porta-malas e conversam algo com a senhora.
EXT. RUA. TARDE
A senhora está dentro do carro, Mel e Cula continuam do lado de fora.
SENHORA
Tentem aproveitar, meus anjos!
Eu vejo vocês mês que vem.
INSERT: Na mão de Cula, duas passagens aéreas apenas de ida.
EXT. PRAIA. AMANHECENDO
A moça da praia dorme na areia enquanto o dia amanhece.
INT. CARRO. TARDE
ANINHA (20), CULA (18) e MEL (20) estão dirigindo numa estrada. Cula está ao volante, ele arrasta um sotaque nordestino enquanto discute com Aninha, que está um pouco agressiva.
CULA
Oush, agora deu
Menina, isso num tá aberto
pra discussão, não! Eu entendo
como eu quiser e pronto.
Cabosse!
ANINHA (para Cula)
O quê? Entende não, viu!
Entende nada...
Tu não entende ninguém, Cula...
Nem tu próprio, e
menos ainda teu pai!
Cula ri. Ele está com raiva e nervoso. A sonoplastia da cena aumenta, fazendo com que não seja possível escutar o resto da discussão. Primeiro, a perna de Mel balançando, depois Aninha mexendo numa caneta e, por fim, o volume da aceleração do carro aumentando. Várias outras sonoplastias se fundem, formando uma harmonia frenética, acelerada. Cula, que desconta todos seus sentimentos na forma que está dirigindo, acelerando e ultrapassando os carros mais lentos à sua frente, não percebe que se aproxima de uma lombada eletrônica cuja velocidade máxima permitida é de
MEL
Aaaaaaaaaaaaaaaaaa
Puta que
pariiiiiiiiiiiiiiiu,
Cacete!
CULA
É isso que tu qué né?
Que tu sempre qué, né, Mel!
Cula passa pela lombada eletrônica acima da velocidade permitida. Os três falam ao mesmo tempo.
CULA (cont)
Mandar! Mandar! MANDAR!!
Caráleo, tu num tem o
controle de tudo não!
MEL
CALA A BOCA IDIOTA
ANINHA
A lombada, a lombada,
A LOMBADA FREEEEEIAAAA, CULAAA!
Cula freia de vez e puxa o carro para o acostamento. Ele, Aninha e Mel ficam em silêncio.
CULA
Alguém tem um cigarro?
MEL
Não, culinha tem não.
Vamo embora, vai!
CULA
Qual a de vocês comigo, hein?
ANINHA
Ai, Cula, esquece!
Depois a gente conversa
CULA
Num quero conversa,
quero explicação!
CULA
Vocês não vão falar comigo não é?
MEL
E vai adiantar?
CULA (sussuro)
Essa porraa...
Cula volta à pista e eles continuam a viagem sem conversar.
EXT. PRAIA. AMANHECENDO
Mulher acorda na praia. Ela recolhe suas coisas que ficaram espalhadas pela areia: uma bolsa, papéis, a sandália e um colar. Ela caminha em direção ao mar, tira as coisas da bolsa, entre elas, uma identidade sem nome ou filiação, apenas uma foto. A moça atira os objetos na água (carteira, celular, dinheiro, sandálias, etc), mas guarda o colar, os papéis que estavam soltos e a identidade sem nome.
INT. SALA. NOITE
Cula entra numa casa bagunçada com duas malas e sobe as escadas. Aninha entra na sala e vai até a cozinha. Mel entra.
MEL
Cadê o povo, hein?
INT. COZINHA. NOITE
Aninha pega um bilhete na geladeira.
ANINHA
"Vcs demoraram muito, porra!
A gnt foi pra San Jôsa, pra ksa
de Bob, limpeza lá.
Quando chegar liga!”
Aninha pega uma cerveja na geladeira e oferece a Mel, que recusa.
MEL
Aninha...
Minha farra só vai começar amanhã, mermo
Vô dormir!
ANINHA
Ô mulher... tais bem?!
MEL
Quem sabe?
ANINHA
...
Conversa com Cula. Ele ta
precisando tanto de tu, Mel!
MEL
E eu dele, né?
ANINHA
Mas ele não sabe!
ele não sabe nem que
você ta precisando dele,
nem que ele próprio precisa de você
MEL
Pois ele que aprenda a sentir
INT. SALA. NOITE
Cula caminh pela casa bagunçada e vazia fumando um baseado. Ele está inquieto. Cula pára diante de um espelho pequeno e tira-o da parede. Senta-se na escada e, através do espelho, percebe um estojo colorido atrás de si. Deixa o espelho de lado, pega o estojo e tira tudo de dentro dele. Separa uma pinça. Tira um cabelo do braço e faz uma careta. Alisa o braço. Tira agora um cabelo da perna. Ele sento bastante dor. Ao se abaixar, Cula se percebe no espelho. Ele pega o espelho novamente e faz a barba com a pinça. Sente bastante dor.
INT. QUARTO. NOITE.
Com barba, Cula entra. Mel está sentada na cama, chorando baixo. Cula entra, senta-se ao seu lado e acende um cigarro enquanto procura algo na cama. Ele não olha para Mel em nenhum instante.
CULA
O cinzeiro ta aí, Mel?
EXT. PRAIA. MANHÃ
Mel corre pela praia, ofegante, com cabelos desarrumados.
INT. QUARTO. NOITE
Mel está com a cara inchada. Ela procura o cinzeiro na cama. Estende a mão com o cinzeiro para Cula. Ele se levanta, pega o cinzeiro da mão dela. Mel segura a mão dele e encara-o. Ele olha para Mel pela primeira vez. Fica irritado e puxa o cinzeiro. Cula bate a cinza e sai do quarto.
MEL (sussuro)
Idiota!
Mel encosta-se na parede e acende um cigarro. Ela deixa o cigarro queimar sem tragar e joga as cinzas no chão. Depois de um tempo, Cula entra, sem barba, e se senta no chão, longe dela.
EXT. PRAIA. AMANHECEDO.
Mulher senta-se. Olha calmamente para os papéis que trazia consigo. Pega uma caneta e risca algumas frases.
INSERT: Lugar da assinatura num dos papéis está em branco, mas nome Melissa aparece logo abaixo da linha da assinatura.
Mulher deixa os papéis de lado e acende um cigarro. Fuma encarando os papéis. Queima os papéis.
INT. VARANDA. AMANHECENDO.
CULA
Eu já expliquei que não
tem nada a ver com isso.
MEL
Mas, Culinha, vai IMPLICAR em algo
pareci... CULA!!!
Olhe pra mim pelo menos!
Cula olha para Mel.
MEL
Meu único problema, Cula,
é saber que sempre que eu for
falar, qualquer coisa, tu ...
Vai Vai continuar fugindo pela
tangente. Eu (suspira) eu
não agüento guardar...
Mel se enconsta na parede.
MEL
Parece que você não viveu as
mesmas coisas que eu, que papai não morr..
CULA
CALE A BOCA MELISSA! Cresça! Deixe
de ser criança, lide com isso.
Cula se levanta.
CULA
Ta que pariu Eu não agüento, entende?
Eu re-al-mente não agüento
Cula acende um cigarro
MEL
O que é que tu acha que
eu to te pedindo, hein?!
CULA
EU, Eu, Eu tô le pedino agora pra gente
fazer um acordo, ta certo?
MEL
Não, num ta certo não.
Acordo, burocracia, contrato...
contigo é sempre assim
Pois se vire agora!
Mel se levanta e sai. BATE A PORTA.
Mel se levanta e sai. BATE A PORTA.
Mel se levanta e sai. BATE A PORTA.
EXT. PRAIA. MANHÃ
Mel passa correndo pela Mulher, que ainda está diante do fogo, fumando. Elas se olham. Mulher observa Mel.
INT. COZINHA. MANHÃ
Cula abre a geladeira. Olha para sala e vê Mel saindo.
CULA
EEEEEEEEEEEEEEEEIIII!!
INT. SALA. MANHÃ
Mel pára.
INT. COZINHA. MANHÃ
CULA
Ta ino pá ondi?
INT. SALA. MANHÃ
MEL (irônica)
Fechar um contrato com o mar.
EXT. PRAIA. MANHÃ
Mel corre, molhando os pés na água. Vê a Mulher observando-a. Desacelera o passo e se senta, perto do mar. Mel deita na areia, as ondas molhando seus pés.
MEL (sussuro)
Fechar um contrato com o mar.
Fechar um contrato com o mar.
Fechar um contrato com o mar.
FECHAR UM CONTRATO COM
A PORRA DO MAR, CARALHO!!
Mel levanta o olhar. Mulher está em pé, ao seu lado.
MULHER
Também tem papel pra queimar?
Mel se assusta e se senta. Mulher se senta junto dela.
INT. COZINHA. MANHÃ
Cula põe um avental e separa panelas. Ele está bebendo cerveja.
INT. QUARTO DE ANINHA. MANHÃ
Aninha acorda.
INT. VARANDA. MANHÃ
Aninha caminha pela varanda. Percebe a bagunça. Vai até...
OUTRO CÔMODO
...Onde procura seus amigos, mas não encontra ninguém. Ela vai até as escadas.
EXT. PRAIA. MANHÃ
MEL
Nomear sentimentos?
MULHER
Exatamente. Quando extrapola
o que é objetivo, a palavra
perde o significado pra se
esvair no entendimento
de cada um.
INT. COZINHA. MANHÃ
Cula tira panelas do fogo e prepara uma bandeja de café-da-manhã. Ele já bebeu cinco cervejas. Aninha aparece chegando na sala.
ANINHA
Jáááá??
CULA
Bom dia, Aninha!
ANINHA
Cadê tua irmã?
CULA (irônico)
Foi assinar um contrato aí, cum mar
ANINHA
Oush, e o povo?
CULA
Vê se ta aqui, no meu bolso!
ANINHA
Que gosseria
CULA (embriagado)
Desculpa, foi mal, aninha,
eu... ééé.. ai meu irmão, desculpa
eu sô uma merda, ta ligado?
É eu sou uma merda, mermo.
ANINHA
Hã?
CULA
Eu sou uma merda um grsso, sem
nenhum objetivo não me entendo
não entendi meu pai não entendo
mel não entendo ninguém, nem sei
se quero entender pq por mais esforço
que eu faça ninguém vai ser
entendido mermo e eu só sei que..
ANINHA
Menino respira! Caráleo, tu bebeu demais!
EXT. PRAIA. MANHÃ
MULHER
Mel, o ar é grávido de possibilidades,
de cheiros, de presenças...
MEL
Só que eu não sei pertencer de
verdade a tudo isso. É como se
eu tivesse de fora, só ... observando!
E eu não entendo nada, num assimilo.
Na minha cabeça não se passa
essa... essa gestação, sei lá
MULHER
Claaaaro! Não se supõe que alguém
teja preparado para nada! Só
que a dor vai fugir do seu corpo,
vai ficar leve, mais
leve que o ar, Mel.
MEL
E qual o peso da caneta?
Mulher deixa de olhar para Mel e sorri. Imagens de papéis sendo queimados aparecem sutilmente com opacidade menor na tela. Mulher volta a olhar para Mel.
MULHER
Tão pesada quanto cinzas.
EXT. PRAIA. MANHÃ
Cula segura uma bandeja na praia e vê Mel falando sozinha. Caminha com a bandeja em direção à ela. Caminha com a bandeja em direção à ela. Ela olha para ele, olha para onde a mulher estava e vê que não tem ninguém.
"FIM"